Iɴғᴏʀᴍᴀᴄ̧ᴀ̃ᴏ ᴇ́ ᴄᴏɪsᴀ sᴇ́ʀɪᴀ

Endividamento atinge 67% dos brasileiros e pressiona orçamento das famílias, aponta Datafolha

Moedas de reais - 15/10/2010 (Foto: REUTERS/Bruno Domingos)

Uma pesquisa recente do Datafolha revela um retrato preocupante da situação financeira no Brasil: o endividamento já faz parte da realidade de dois em cada três brasileiros. Segundo o levantamento, 67% da população possuem algum tipo de dívida, incluindo empréstimos, financiamentos e compras parceladas. Entre esses, 21% estão com pagamentos em atraso, evidenciando o impacto do crédito caro e da renda limitada no dia a dia das famílias.

O estudo foi realizado nos dias 8 e 9 de abril, com 2.002 pessoas de 16 anos ou mais em 117 municípios, e apresenta margem de erro de dois pontos percentuais. Os dados indicam que o problema vai além das dívidas bancárias, refletindo um cenário mais amplo de aperto financeiro, redução de consumo e queda na percepção de bem-estar.

Inadimplência e crédito caro agravam cenário

A pesquisa mostra que a inadimplência está presente em diferentes modalidades de crédito. Entre aqueles que pediram dinheiro a amigos ou familiares, 41% afirmam estar devendo. Já no cartão de crédito parcelado, 29% dos usuários relatam atraso nos pagamentos. Empréstimos bancários (26%) e carnês de lojas (25%) também aparecem entre as principais fontes de dívida.

Outro dado relevante é o uso do crédito rotativo do cartão, uma das opções mais caras do mercado. Cerca de 27% dos entrevistados afirmam recorrer a essa modalidade, que é acionada quando o consumidor paga apenas o valor mínimo da fatura. Os juros médios chegam a 14,9% ao mês, o que contribui para o rápido crescimento da dívida.

Especialistas apontam que a ampliação do acesso ao crédito, combinada com juros elevados e inflação persistente, aumentou o comprometimento da renda e os níveis de inadimplência.

Contas básicas entram no vermelho

O levantamento também evidencia que o endividamento atinge despesas essenciais. Entre os entrevistados, 28% afirmaram estar com contas de consumo em atraso. As dívidas mais citadas incluem telefone, internet e celular (12%), impostos como IPTU e IPVA (12%), além de contas de luz (11%) e água (9%).

Esse dado mostra que a dificuldade financeira já ultrapassa o consumo supérfluo e atinge serviços básicos, indicando uma deterioração mais profunda da capacidade de sustento das famílias.

Quase metade vive sob pressão financeira

De acordo com um índice criado pelo Datafolha, 45% dos brasileiros vivem em situação financeira apertada ou severa. Outros 36% estão em condição moderada, enquanto apenas 19% apresentam baixo ou nenhum nível de restrição.

O resultado ajuda a explicar a sensação generalizada de insegurança econômica, mesmo em cenários de eventual aumento de renda nominal.

Cortes atingem alimentação, saúde e lazer

Para lidar com o aperto, a população tem sido obrigada a rever hábitos. Entre os entrevistados, 64% reduziram gastos com lazer, 60% passaram a comer menos fora de casa e o mesmo percentual optou por marcas mais baratas. Além disso, 52% diminuíram a quantidade de alimentos comprados.

A contenção também atinge áreas essenciais: 50% reduziram consumo de água, luz e gás, 40% deixaram de pagar contas, 38% atrasaram dívidas e outros 38% cortaram gastos com medicamentos.

Problemas financeiros lideram preocupações

Quando questionados sobre o principal problema pessoal, 37% dos brasileiros citaram questões financeiras, como falta de renda, endividamento e custo de vida. A saúde aparece em segundo lugar, com 18%, seguida por trabalho (8%) e questões pessoais (5%).

Os dados mostram que a preocupação com dinheiro é hoje central na vida da população, refletindo diretamente no bem-estar.

Cartão de crédito vira ferramenta de sobrevivência

O cartão de crédito está presente na vida de 57% dos brasileiros, sendo utilizado inclusive para despesas básicas. Parte dos usuários admite práticas de risco, como pagar a fatura de um cartão com outro, o que evidencia o nível de dificuldade financeira.

Além disso, 68% dos entrevistados acreditam que as ofertas de crédito via celular e internet incentivam o endividamento por impulso. Mais da metade afirma ser difícil fechar as contas do mês sem recorrer ao cartão.

Falta de planejamento e ausência de reserva agravam situação

O levantamento também aponta fragilidades na organização financeira. Embora 44% afirmem ter controle detalhado dos gastos, 23% não fazem qualquer tipo de planejamento.

A ausência de reserva financeira é outro fator crítico: 66% dos brasileiros não possuem poupança. Entre os que têm alguma economia, a maioria não conseguiria manter as despesas por mais de poucos meses em caso de emergência.

Impactos vão além da economia

A pesquisa indica ainda que 49% dos brasileiros se sentem mal ou muito mal em relação à situação financeira do país. O cenário, segundo especialistas, pode ter reflexos sociais e até políticos, já que o endividamento afeta diretamente a percepção de qualidade de vida.

Com isso, o avanço das dívidas deixa de ser apenas uma questão individual e passa a ocupar espaço no debate público, exigindo atenção de políticas econômicas e sociais.

O retrato traçado pelo Datafolha revela um país onde o crédito, antes visto como ferramenta de acesso e consumo, tem se tornado um recurso de sobrevivência diante do aumento do custo de vida e da pressão sobre a renda. 

Deixe seu comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem

PUBLICIDADE

Veja no Tiktok