Estudo com mais de 5,5 mil pessoas indica que monitorar os níveis do hormônio e controlar o peso são medidas essenciais para evitar mortes prematuras
“A obesidade abdominal é um conhecido fator de risco por estar associado à inflamação e a problemas metabólicos. Já a vitamina D é um hormônio que atua em vários órgãos, e sua deficiência compromete diversas funções do corpo. Quando essas duas condições aparecem juntas, uma potencializa os efeitos da outra, elevando ainda mais o risco de morte”, explica Tiago Silva Alexandre, professor do Departamento de Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenador da pesquisa. “Por isso, acompanhar os níveis de vitamina D e tratar o excesso de gordura abdominal são medidas essenciais para evitar mortes prematuras, principalmente após os 50 anos”, acrescenta.
Realizada em colaboração com cientistas da University College London (Reino Unido) e financiada pela FAPESP, a pesquisa acompanhou 5.520 pessoas com 50 anos ou mais por seis anos. Os participantes integram o English Longitudinal Study of Ageing (ELSA), um dos maiores estudos de envelhecimento do mundo.
Os dados coletados mostram que a deficiência de vitamina D (níveis abaixo de 30 nanomoles por litro de sangue) sozinha representa um risco maior do que a obesidade abdominal isolada – definida como circunferência abdominal maior que 102 centímetros para homens e 88 centímetros para mulheres. Enquanto ter apenas obesidade abdominal aumenta o risco de morte em 47%, a deficiência de vitamina D isolada pode elevar esse risco em até 81%. O estudo mostrou que, quando as duas condições aparecem juntas, o risco de morte mais que dobra em comparação àquelas pessoas que não apresentam nem obesidade abdominal e nem deficiência de vitamina D.
De acordo com Alexandre, as duas condições criam um ciclo vicioso. Isso porque a gordura abdominal “sequestra” a vitamina D circulante e a armazena nos adipócitos (células de gordura), impedindo que ela chegue ao sangue. “Isso significa que, embora o corpo possa ter a vitamina guardada na gordura, ela não está livre no sangue para realizar suas funções vitais em outros órgãos e sistemas”, diz.
Outro fator importante é que pessoas com obesidade apresentam menor expressão de enzimas necessárias ao metabolismo da vitamina, reduzindo ainda mais sua disponibilidade. “A obesidade abdominal reduz a vitamina D circulante e essa deficiência, por sua vez, prejudica o sistema imunológico, agravando a inflamação crônica já causada pelo excesso de gordura e elevando drasticamente o risco de mortalidade”, explica Alexandre à Agência FAPESP.
Adiciona-se ainda a esse quadro o fato de que o envelhecimento é marcado naturalmente por um processo conhecido como inflammaging, um estado de inflamação crônica de baixo grau. “Em condições normais, a vitamina D atua como reguladora do sistema imunológico, impedindo que a inflamação se descontrole. Quando seus níveis estão baixos e há excesso de gordura abdominal, instala-se um ambiente sistêmico desfavorável que acelera doenças cardiovasculares, metabólicas e a perda muscular”, ressalta.
Efeito em cascata
O estudo agora publicado é o último de uma série sobre o papel da vitamina D no envelhecimento. “Em trabalhos anteriores, identificamos um efeito em cascata. A deficiência de vitamina D acarreta perda de força, que implica redução da velocidade de caminhada, gerando perda de autonomia e maior dependência nas atividades diárias”, conta Alexandre (leia mais em: agencia.fapesp.br/55593).
Além disso, outro estudo do grupo mostrou que a deficiência de vitamina D também aumenta o risco de declínio cognitivo.
“A vitamina D é um hormônio com diversas funções. Ela participa da regulação da pressão arterial, da frequência cardíaca, do sistema nervoso central, do sistema imunológico e do sistema endócrino. Por isso, quando seus níveis estão baixos, diversas funções essenciais do organismo ficam comprometidas”, diz.
O artigo Does the combination of abdominal obesity and vitamin D deficiency increase the risk of death in individuals aged 50 or older? Evidence from the ELSA study pode ser lido em: https://dom-pubs.pericles-prod.literatumonline.com/doi/10.1111/dom.70839.
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