Dados da PeNSE 2024 mostram índices maiores de sofrimento emocional entre meninas e levantam questões sobre gênero, imagem corporal e redes sociais
![]() |
| Adolescente em sala de aula; ambiente escolar é um dos espaços importantes para identificar sinais de sofrimento emocional – Foto: Pexels/RDNE Stock project |
A saúde mental de meninas adolescentes apresenta diferenças expressivas em relação aos meninos. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em maio de 2026, mostram que 25% das meninas entrevistadas disseram ter sentido que a vida não valia a pena ser vivida, contra 12% dos meninos. A vontade de se machucar de propósito também foi mais que o dobro entre elas: 43,4%, contra 20,5% entre eles. Outro indicador de sofrimento emocional aparece na frequência com que os adolescentes se sentiram irritados, nervosos ou mal-humorados: 58,1% das meninas relataram esses sentimentos na maior parte do tempo ou sempre, enquanto entre os meninos o índice foi de 27,6%.
Para o professor Sérgio Kodato, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, os números precisam ser compreendidos também a partir das diferentes formas como meninas e meninos são educados desde a infância para lidar com sentimentos como raiva, frustração e agressividade. Segundo ele, enquanto os meninos tendem a receber maior validação social para colocar esses sentimentos para fora, as meninas são frequentemente incentivadas a serem delicadas, conciliadoras, cuidadoras, pacíficas e a evitar confrontos. “Quando não se encontra uma via de expressão adequada no mundo externo, a agressividade pode voltar-se contra o próprio sujeito, aparecendo como culpa, autodepreciação, autolesão ou pensamentos de morte”, explica.
Essa socialização pode influenciar a maneira como os adolescentes enfrentam conflitos e frustrações durante uma fase marcada por mudanças, pressões sociais e construção de identidade. Para Kodato, ensinar meninos e meninas a reconhecer e expressar os próprios sentimentos é importante para que eles não fiquem restritos a papéis de gênero determinados socialmente. A cobrança sobre as meninas também aparece em expectativas relacionadas ao comportamento, à aparência e à capacidade de agradar outras pessoas.
De acordo com o professor, embora a sociedade tenha mudado, alguns modelos que associam as mulheres ao cuidado e à necessidade de corresponder a determinados padrões ainda permanecem. “A adolescente pode experimentar uma contradição. E espera-se que seja independente e competente, mas simultaneamente continua sendo cobrada pela aparência, pelo comportamento, pela sexualidade e pela capacidade de agradar”, afirma. Essa quantidade de expectativas pode contribuir para uma sensação de inadequação. A adolescente pode sentir que precisa atender, ao mesmo tempo, a diferentes padrões de comportamento e aparência, enquanto atravessa uma fase de construção da própria identidade.
A pressão sobre o corpo
A relação com a aparência é outro aspecto apontado pelo professor. Segundo Kodato, a valorização de padrões de beleza muito específicos pode fazer com que o corpo, que deveria estar relacionado à identidade e ao pertencimento, passe a ser percebido como motivo de vergonha. “Existe uma valorização muito intensa do corpo perfeito, do rosto perfeito, da juventude, da magreza e de uma aparência cuidadosamente produzida. O problema é que esse padrão é muitas vezes praticamente inatingível”, explica.
Para ele, o distanciamento desses padrões também pode expor a apelidos, bullying e exclusão. O sofrimento relacionado à imagem corporal pode aparecer de diferentes formas, mas o professor ressalta que não é possível estabelecer uma relação causal automática entre pressão estética e comportamentos como autolesão ou pensamentos suicidas.
As redes sociais podem intensificar esse processo ao ampliar a exposição e a comparação entre os adolescentes. Fotografias, vídeos e publicações apresentam recortes selecionados da vida das pessoas, que podem ser interpretados como padrões de beleza, felicidade, sucesso e pertencimento. Segundo Kodato, o adolescente pode acabar comparando a própria vida com versões editadas da realidade e desenvolvendo sentimentos de inferioridade, autocobrança e frustração.
Para o professor, esse processo pode ser especialmente delicado durante a adolescência, período em que a identidade ainda está em construção. A comparação deixa de estar relacionada apenas à aparência e passa a envolver também a sensação de não corresponder às expectativas sociais.
Escola e família
Diante desse cenário, a escola pode ter um papel importante na identificação de sinais de sofrimento emocional: mudanças de comportamento, isolamento, queda no rendimento escolar, ansiedade, tensão constante e perda de interesse por atividades que antes despertavam interesse estão entre os sinais que merecem atenção. Kodato ressalta, no entanto, que os professores não devem substituir profissionais de saúde. O papel da escola está em reconhecer manifestações de sofrimento, acolher o adolescente e encaminhá-lo para o atendimento adequado quando necessário. “O mais importante é não banalizar essas manifestações como drama de adolescente, indisciplina ou falta de interesse, mas prestar muita atenção para casos de isolamento, apatia ou mesmo sofrimento atroz”, afirma.
A atenção também deve estar presente dentro das famílias. Para Kodato, o diálogo precisa substituir, em alguns casos, respostas baseadas apenas em julgamento ou repressão. O adolescente pode precisar primeiro de um adulto disposto a ouvir aquilo que está sentindo antes de receber uma solução. “Nas famílias, também precisamos substituir um pouco a lógica do julgamento pela lógica da escuta.” Os dados da PeNSE, portanto, evidenciam uma diferença importante nos indicadores do sofrimento emocional entre meninas e meninos, mas a interpretação desse cenário envolve diferentes dimensões. Para o professor, compreender essas diferenças exige olhar para as formas de educação, as cobranças sociais, a relação com o corpo e os espaços de convivência dos adolescentes. Kodato defende a necessidade de criar condições para que essas meninas possam desenvolver autonomia, reconhecer seus limites e expressar sentimentos e fragilidades. Para ele, a discussão também passa pela maneira como meninos e meninas são educados e pelo tipo de sociedade construída para as novas gerações.
Fonte: Jornal da USP

إرسال تعليق